Análise Geral
René Descartes (1596 – 1660) é o pai da filosofia moderna. Descartes
trata o problema do conhecimento como ponto culminante na filosofia. A teoria
do conhecimento utiliza-se da relação entre o sujeito e o objeto do
conhecimento, o pensamento e as coisas, o interno e o externo. Os dois
filósofos que iniciaram a observação da capacidade humana entre a verdade e o
erro são Francis Bacon, filósofo inglês, e como já citado, o filósofo francês
René Descartes. Porém o primeiro filósofo que trata inicialmente da teoria do
conhecimento é John Locke, filósofo inglês. Essa teoria torna-se, portanto,
ponto central da filosofia a partir do século XVII; também pode ser definida
numa perspectiva de senso comum como a primeira filosofia que estabeleceu as
bases da ciência moderna e contemporânea. Contudo, a filosofia alemã, por volta
da metade do século XVIII, começa a se ocupar de uma filosofia científica, e
não mais metafísica, fazendo com que se inicie o empirismo inglês, e
influenciando Immanuel Kant que critica a razão dentro do racionalismo, para
determinar os reais objetivos do conceito racional, pois Kant é inserido em um
período ao mesmo tempo empirista e racionalista.
1. Racionalismo Cartesiano
Para reconhecer algo como verdadeiro, René Descartes considera necessário
utilizar a razão e o raciocínio para transformar esse algo em idéias claras e
distintas, com o objetivo de entender, estudar, compreender, analisar,
criticar, questionar, o sistema, experimentar na razão e na ciência, ou seja,
estudar racionalmente e cientificamente.
Descartes utiliza-se de uma intuição primeira como fundamento para a
construção da filosofia, que é a questão da dúvida que surge em si mesmo, ou
seja, o próprio ser que duvida, pois se duvido penso, e se penso, logo existo:
"Cogito, ergo sum", "Penso, logo existo".
À partir do princípio de Descartes em que tudo pode ser duvidado e tudo
poder ser passível de dúvida, surgem vários tipos de ideias, algumas confusas,
duvidosas, e outras distintas, claras. Contudo, essas ideias distintas, claras,
são as ideias verdadeiras, inatas, inerentes, ou seja, não possíveis de erros
pelo fato de surgirem da razão, como por exemplo, a ideia da perfeição de Deus.
Para ter certeza que a razão não se engana pela realidade, Descartes
toma como evidencia o que pode não passar de um erro de pensamento ou mesmo
ilusão dos sentidos, e com isso, a ideia de Deus como um ser perfeito, pois ser
um ser é perfeito, deve ter a perfeição da existência, caso contrário lhe
faltaria algo para que fosse perfeito, portanto, Deus existe. Essas conclusões
são possíveis a partir da sua metafísica, que é buscar a identidade da matéria
e espaço, pois o mundo é formado pela mesma matéria em qualquer parte, sua
extensão é infinita e o vácuo é algo impossível.
Com a conseqüência do "cogito" surge o fato, Descartes tendo
uma grande valorização da razão e do entendimento, partindo do cogito,
descobrem-se todas as verdades possíveis, e esse método cartesiano mostra de
que e como o mundo é feito, possibilitando o desenvolvimento das ciências e os
caminhos da dominação humana diante da natureza, e é com isso que as ideias
claras e distintas mostram o mundo como algo que pode ser avaliado com
precisão. Em seguida, a ciência, ainda baseada em qualidades duvidosas, a
partir do século XVII torna-se matemática, capaz de reduzir todo o universo à
mecanismos que podem ser medidos através da geometria.
Uma outra conseqüência que surgiu é o dualismo psicofísico, ou seja, o
ser humano como ser duplo, composto de substância pensante e substância
extensa, Esse fato serviu de tema de discussão nos dois séculos seguintes,
sendo o corpo objeto de estudo para a ciência, e a mente objeto de estudo para
a reflexão filosófica.
2. Empirismo Inglês
Empirismo significa experiência, e ao contrário do racionalismo, destaca
como prioridade a experiência sensível no processo do conhecimento.
No empirismo a experiência sensível é fundamental, e o que vem depois da
razão depende dessa experiência. O empirismo questiona o caráter da verdade,
pois o conhecimento parte da realidade referente ao ser humano, tempo e espaço.
2.1 John Locke
O empirismo inglês se inicia com o filósofo John Locke (1632 – 1704),
conhecido como o teórico do liberalismo. Locke parte do ponto de vista
cartesiano propondo o problema metafísico de Descartes como o problema do
conhecimento, e com isso inicia sua filosofia partindo da pergunta: "Qual
é a essência, qual é a origem, qual é o alcance do conhecimento humano?".
Essa importante reflexão encontra-se em sua obra Ensaio sobre o entendimento
humano.
Investigando a origem das ideias, Locke utiliza-se do caminho da
psicologia, pois assim como para Descartes, qualquer pensamento é todo fenômeno
psíquico em geral. Por esse caminho Locke também mostra que existe diante das
ideias, a sensação, que surge com a mudança mental através dos sentidos;
e a reflexão que é obtida pela alma através de tudo que diante dela
ocorre.
Portanto, para Locke, as ideias simples que surgem das sensações, das
reflexões, ou da combinação entre elas, são as ideias correspondente à uma
realidade que existe em si e por si mesma. Já o que causa essas ideias simples
é a "qualidade" dos objetos, porém nem tudo tem o mesmo valor ontológico
e por esse motivo Locke diferencia essas percepções como as qualidades
primárias, que são a extensão, a solidez, a forma, o movimento, o repouso, o
número, a impenetrabilidade dos corpos; e as qualidades secundárias que são a
cor, o odor, a temperatura, o som, o sabor, etc.
Criticando a doutrina das ideias inatas de Descartes, afirma que
o conhecimento só se inicia após a experiência sensível, pois se essas ideias
existissem até mesmo uma criança teria desde que nascesse, a ideia de Deus como
ser perfeito.
2.2 Francis Bacon
Para Francis Bacon, filósofo inglês (1561 – 1626), a valorização do
domínio da natureza, parte do princípio de que "saber é poder".
Filósofo da era industrial, em sua obra Novum Organum (Novo Órgão),
revela seu interesse pelo método da ciência, onde "órgão" significa
instrumento do pensamento, critica também a lógica de Aristóteles, pelo fato
dos preconceitos e das noções falsas, dificultando a compreensão da realidade,
chama-se isso de teoria dos ídolos.
A primeira coisa que a teoria dos ídolos pretende, é tornar o ser humano
consciente das falsas noções que não permitem o caminho para as verdades. São
quatro tipos de ídolos: os ídolos da tribo, que são criados pela própria
natureza humana, na espécie humana, ou seja, a própria família humana ou
"tribo"; os ídolos da caverna, que são procedentes do
indivíduo por si só e impedido de conhecer a verdade devido aos defeitos e
erros dos órgãos de sentido, esses erros e defeitos são provenientes tanto da
própria natureza, quanto por sua educação ou hábitos; os ídolos do foro,
também conhecidos como ídolos do mercado, são as opiniões que o individuo
recebe através da linguagem e relação com outros indivíduos, bloqueando o
intelecto; e os ídolos do teatro que são opiniões adquiridas pelos
indivíduos através das autoridades impondo pontos de vista transformados em
leis.
2.3 David Hume
Já David Hume, filosofo escocês (1711-1776), afirma que como não podemos
observar os fenômenos e por isso esses não pertencem aos objetos, as relações
são exteriores, ou seja, modos passados de um termo ou objeto a outro,
associando-se pelas semelhanças.
Hume nega o principio da causalidade, ou seja, ele acredita na serie de
acontecimentos dos fatos e sequência de eventos.
Portanto, todo o conhecimento deve advir das sensações, sem excluir a
razão como a organizadora dos dados e informações dos sentidos.
3. A Critica Kantiana
Nascido na Alemanha, Immanuel Kant (1724-1804) oferece uma nova concepção à teoria do conhecimento, tentando superar a polêmica causada entre o racionalismo e o empirismo.
Kant afirma que o ser humano pode ser feliz e organizar a sociedade
usando a razão como ferramenta, e que não é Deus que comanda a sociedade e sim
a própria razão humana. Com isso, Kant nega que o ser humano conheça algo que
seja totalmente superior á matéria, assim como afirmam os empiristas, e nega
ainda que seja necessária somente a experiência para que o ser humano conheça a
matéria, assim como os racionalistas.
Kant explica que tudo que conhecemos da matéria, é justamente o que a
razão oferece á matéria, ou seja, as formas. Explica também que não se pode
conhecer a essência das coisas, pois o noumenon (coisa em si) não
permite acesso ao conhecimento, porém podemos conhecer os fenômenos que
se tornam compreensíveis pelo fato de participarmos de sua construção.
Após anos de reflexão, Kant elabora teorias como a Critica da razão
pura; Critica da razão pratica; e a Critica do juízo.
Na Critica da razão pura, Kant afirma que todo e qualquer conhecimento
sobre a realidade sensível, nasce da experiência estruturada pelo tempo e pelo
espaço. As representações oferecidas pela sensibilidade são ordenadas pelas
"categorias do entendimento" que atuam como "moldura" das
experiências. Essas características são a qualidade, quantidade, relação e
modalidade. O conhecimento é um resumo onde o intelecto oferece a forma e a
experiência oferece o conteúdo, essa relação é determinada pela imaginação, que
Kant estabelece como faculdade criadora; Kant questiona ainda toda a
metafísica, pois esta não pode ser uma experiência sensível, portanto não pode
ser conhecida através da razão.
Na Critica da razão pratica, Kant retoma com a metafísica, afirmando que
a razão pratica trata da ação moral, pois os seres humanos agem por sua própria
vontade seja ela boa ou má, já a ética não pode cair em "ilusão".
Portanto a moralidade prova que existe algo que transcede o sensível, ou seja,
prova a existência de Deus, formulando assim a metafísica da ética.
Em sua ultima teoria, a Critica do juízo, Kant estuda as noções de
finalidade e beleza, que não podem ser explicadas pela experiência mas que são
inerentes ao ser humano. Essa intuição estética conclui a relação entre a
imaginação e o entendimento, fazendo com que a imaginação se torne sensível e a
sensibilidade se torne racional.
As principais questões que Kant se preocupa são: "Como justificar
filosoficamente a física?", e "Como justificar a moralidade?".
Portanto, Descartes valoriza a razão diante dos sentidos e da tradição,
e Kant valoriza a forma do conhecimento, espontâneo da razão, que é oferecida
pela sensação.
4. Conclusão
Para Descartes, nem as ideias e nem os sentidos, podem nos dar alguma
certeza ou nos levar ao entendimento da realidade. Por esse motivo tentando
desenvolver uma forma de se chegar a verdade, estabelece um sistema de
raciocínio baseado na duvida e que não conduz à certezas ou verdade,
reconstruindo assim a metafísica clássica, afirmando que a essência do ser
humano se encontra no pensamento.
Já a teoria de Kant busca alcançar uma universalidade para a teoria do
conhecimento.
Portanto, o racionalismo mostra que o conhecimento nasce através das
ideias inatas, ou seja, que o pensamento do ser humano é capaz de deduzir as
coisas do mundo; e o empirismo mostra que a experiência do ser humano é
adquirida através das percepções do mundo externo, abstraindo essas realidades
exteriores e modificando-as através da mente.